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São Tomé e Príncipe: Duas ilhas, Um País

Sustentabilidade, progresso, ecoturismo, gastronomia e personagens inesquecíveis. São Tomé e Príncipe é um projeto para o futuro. E está a acontecer hoje. Para ler e ver nos programas de televisão da Volta ao Mundo na RTP 3.

 

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Ilha do Príncipe

É Reserva da Biosfera e um exemplo para o mundo quanto a sustentabilidade ambiental e desenvolvimento das populações locais. Além disso, é um pequeno paraíso.

De quatro a doze horas é o tempo que leva a viagem de barco entre São Tomé e o Príncipe. Tudo depende do estado da embarcação, se é de carga ou de passageiros, se o mar está bravo ou calmo como um espelho. Optamos pelo avião e por 35 minutos de voo para cumprir cerca de 140 quilómetros de distância entre as duas ilhas. Nem dá tempo para uma soneca depois do pequeno‑almoço. A tripulação é da Europa de Leste, nota‑se pelo sotaque das comunicações. Os passageiros são cerca de trinta, metade são‑tomenses. Há um casal de alemães que não sabem bem o que esperar do destino para onde voam. Uma espanhola e um asiático leem com gula um guia sobre a ilha do Príncipe.

O avião vai perdendo altitude de forma rápida, furando o capacete de nuvens que já é uma imagem de marca deste arquipélago africano, um dos mais pequenos países do mundo. E é a bater as dez da manhã que os tons de verde e azul do mar começam a ser elogiados desde a janela do avião. Estamos a chegar ao Príncipe. E depressa vamos perceber por que razão a ilha foi declarada Reserva da Biosfera pela UNESCO em 2012.

Marina Pereira está à espera para nos levar à Roça Sundy. É uma das muitas funcionárias do grupo HBD, criado pelo sul‑africano Mark Shuttleworth. Diz a lenda local que o empresário (e milionário) terá sobrevoado a ilha no seu avião particular e que a beleza e a imponência da natureza lhe terão chamado a atenção. Informou‑se, visitou o território e resolveu investir no turismo, mas não só. Hoje a empresa é a principal entidade privada na ilha a apoiar o desenvolvimento sustentável, sem nunca esquecer o crescimento económico e social. Não é disso que falamos na curta viagem até à Roça Sundy. Estamos mais entretidos a tentar orientar‑nos nesta jangada verde de dezasseis quilómetros de comprimento por oito de largura.

Marina é açoriana, já viveu em Angola e o Príncipe está a ser «uma experiência única e positiva». É ela quem o diz enquanto conduz a pick-up pelas estradas que passam depressa a picadas. Chegamos ao paralelepípedo que indica a proximidade à antiga roça colonial, a primeira do arquipélago a receber um pé de cacau. Foi em 1822 e história não falta por aqui. Caminhamos pelo meio da relva alta. Há jovens e adultos a jogar à bola no relvado natural. Da creche – a funcionar num rés‑de‑chão de um dos edifícios – saem as gargalhadas e cantilenas normais das crianças. Somos convidados a entrar e a participar na cantoria. Impossível resistir.

Foi na Sundy que, em maio de 1919, o astrónomo inglês Sir Arthur Eddington comprovou a Teoria Geral da Relatividade de Albert Einstein. Aconteceu durante um eclipse solar, que permitiu analisar a deflexão da luz. Trocando por miúdos – e está tudo explicado numa placa alusiva ao acontecimento histórico –, provou‑se que o espaço e o tempo não eram absolutos. Foi uma das descobertas científicas mais importantes da ciência e pouca gente sabe que ocorreu aqui, na Sundy, a forma simplificada com que foi batizado o primeiro proprietário da roça. De senhor Dias a Sundy foi um passo de língua e de tempo.

A roça está dividida em dois espaços: a casa principal e os antigos secadores e as sanzalas e as cavalariças. Cerca de quinhentas pessoas vivem nas proximidades e o ponto de encontro é o terreiro central, aquele dos jogos de futebol improvisados. O antigo hospital, junto ao principal acesso, é só uma sombra do que já foi, mas tem o encanto e o potencial de uma construção que a selva está a encarregar-se de cobrir. Marina leva‑nos agora para a casa principal, onde serão distribuídos os quartos e feitas as apresentações. Manuel Barbosa é o diretor da Roça Sundy. Já correu mundo em trabalho e em prazer e encontrou na ilha um refúgio perfeito. «É um lugar especial, cheio de história e onde se sente a tranquilidade em cada canto.» Sim, Manuel. Ainda agora chegámos e já estamos a senti-la.

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É tempo para uma bruschetta com tomate assado, presunto do Príncipe e micocó – uma das mais utilizadas ervas da ilha, presente nos principais pratos. Dizem que o seu chá é afrodisíaco. Os próximos dias o dirão. Ou não. Segue‑se polvo, coco e pudim de pão.

As baterias estão carregadas e agora é Ofreu Aurora, nascido e criado por aqui, que serve de cicerone. É um experiente guia no que diz respeito à flora e à fauna. Ainda não tem carta de condução, por isso oferecemo‑nos para conduzir pela estrada sinuosa e lamacenta. Ofreu tem o cabelo com rastas e estas encontram‑se no cocuruto, presas por um elástico. Podia ser Éder ou Salvador Sobral, mas nenhum desses saberá tão bem identificar espécies comestíveis à beira de um caminho tão encharcado como este. Não para de chover há bem mais de duas horas. «Chuva mulher», ri‑se Ofreu. É o nome dado por cá – pelos homens – à água que cai do céu de forma persistente e aborrecida. «Chuva homem é outra coisa», diz‑nos. «É mais bruta e rápida.»

E nisto chegamos à praia, daquelas com vegetação quase até ao mar. Escondido na floresta já está o esqueleto daquilo que vai ser, nos próximos meses, o Sundy Praia, a nova unidade do grupo HBD – um resort de luxo com os pés na areia.

 

Chegar à Praia Banana de barco é uma experiência única. É uma fatia do paraíso.

 

A sobrevoar a Ilha do Príncipe. Lá em baixo está o Bom Bom Resort Island e as duas praias a que se tem direito.

Voltamos à roça para uma prova de cacau. Afinal, foi aqui que tudo começou. Há fresco, em vinagre, como muesli, sob a forma de creme ou torrado. A noite caiu depressa como sempre acontece nas imediações da linha do equador. Hoje vamos sair para jantar na capital da ilha, Santo António. É uma cidade que provoca sentimentos contraditórios. Por um lado, pobre, mal cuidada, quase a roçar o abandono. Por outro, cheia de crianças e jovens, movimentada para os seus cinco mil habitantes, com uma loja de cada ramo para os servir – padaria, mercearia, de recordações ou de venda de tecidos.

Paramos no Mira Rio, o café com vista de rio, ponto principal para os estrangeiros que cá vivem – a internet é um fator convidativo. Tem máquina de café de cápsula e cerveja nacional, sempre sem rótulo, bem como portuguesa. Próxima paragem: a associação cultural e restaurante Rosa Pão. A mesa está posta no alpendre. Já lá está sentada uma família de quatro pessoas e mais três documentaristas que andam a filmar pelo Príncipe. Todos franceses. Portugueses, além de nós, há mais. Uns trabalham para o HBD, outros para a Reserva da Biosfera.

A comida começa a chegar, as conversas cruzam‑se e três são-tomenses aproximam‑se. «Boa noite, sejam bem‑vindos à ilha do Príncipe.» Um está de galochas sujas pela lama, outro de havaianas e o terceiro de ténis. Trazem três violas e uma harmónica. «Somos a Banda Unida.» Os sons de África acompanham agora a barracuda, um dos muitos peixes desta costa. «Ter uma vida boa nesta terra não é fácil não», canta a Banda Unida. «São Tomé e Príncipe, terra linda», diz o refrão. E é assim que vamos embalados de regresso à Sundy. No dia seguinte há muito para fazer.

Começamos com uma visita ao Precipício, tem de ser. É deste miradouro que se tem a melhor vista sobre a praia Banana, um dos cartões‑postais da ilha. Seguimos selva dentro para a Roça Paciência, outra das estruturas deixadas pelos portugueses. Tem o mesmo aspeto deteriorado pelo tempo, mas coisas novas estão a surgir por aqui. Geraldo Cravid tem o sorriso de quem gosta de receber gente. É o responsável pela área agrícola, a nova vida da Paciência. Daqui saem legumes, frutos, ervas aromáticas, café e cacau, além das compotas servidas aos pequenos‑almoços nos principais hotéis do Príncipe.

Ainda antes do almoço temos encontro marcado com Yodi, um dos mais experientes guias do país. Cortamos por estradas de terra, avistamos o Boné do Jóquei, um ilhéu ao largo que tem o formato do nome, e paramos no início do T7, um dos oito que constituem os Trilhos da Biosfera marcados na ilha. São 45 minutos de caminhada sobre pedras, terra e lama. É acessível para toda a gente com mobilidade, não sendo aconselhável a crianças pequenas nem adultos de idade avançada.

Pelo caminho, Yodi vai falando das espécies, da história da cascata para onde caminhamos – a Oquêpipi. «Antigamente, os donos da roça vinham passar o fim de semana para aqui, até construíram um caminho. Com o tempo, ficou coberto e só muito recentemente voltámos a descobri‑lo.» A humidade é elevada e o som da cascata está cada vez mais perto. A queda de água tem mais de setenta metros de altura, segundo Yodi, de 36 anos, com quatro filhos. Com a catana corta um ramo e dá‑nos a provar. A água que de lá sai está filtrada pela natureza.

A lagoa que se forma pela cascata pede um mergulho, apesar da água fria. Ficam dois conselhos: não mergulhar sem ver o fundo e não beber a água que ali chega. É tempo de fazer o caminho inverso até ao jipe. E deste até Santo António onde nos espera Dona Zinha. É a típica matriarca africana e tudo se desenvolve em seu redor. Aquilo que já foi uma barraca sem condições é hoje um modesto restaurante com tábuas corridas a servir de mesas e bancos. Banana assada, peixe e caranguejo são os reis da festa, apesar do atraso de quase duas horas com que chegámos. «Já está tudo frio…», lamenta Dona Zinha, naquela espécie de raspanete de que nos lembramos quando éramos crianças e ficávamos na rua a brincar até mais tarde.

Há um passadiço de madeira que já é mítico no Príncipe. Liga a ilha ao mais famoso dos ilhéus da região – o Bom Bom. Faz parte de um resort que não precisa de publicidade nem de pruridos quanto a elogios. É um pequeno paraíso e basta ali chegar para se perceber. Sérgio Duarte, diretor‑geral, fala‑nos da pesca ao marlim que tornou conhecida a enseada, refere o ecoturismo como motor da ilha, apresenta as novidades do Bom Bom e salienta a experiência vivida por cada pessoa que chega: «Há quem venha passar dois ou três dias e marque logo para o ano seguinte. E entende‑se porquê.» Além do insuperável trinómio bungalow‑praia-palmeira, há mergulho, pesca, caminhadas e passeios de barco para fazer.

Afinal, esta é a ilha onde mais de cinquenta por cento do território é área protegida. É aqui que se trocam garrafas de plástico por outras amigas do ambiente, que se incentiva a reciclagem desde a escola primária, que se combate o turismo de massas com o turismo de consciência. Estrela Matilde fala de tudo isto com paixão. Portuguesa de Sines, já é sãotomense por mérito. Trabalha para a Reserva da Biosfera e é uma das pessoas que dão a cara em defesa do Príncipe. Elogia o trabalho feito pelo governo da ilha e pelas empresas estrangeiras que têm apostado no território, mas acima de tudo gosta de realçar a maior riqueza que encontrou: «É óbvio que esta é uma reserva única da biosfera, com uma diversidade que chega a ser maior do que a das ilhas Galápagos. Isso é impressionante, mas não tenho dúvidas de que são as pessoas quem mais faz a diferença aqui.»

Uma dessas pessoas é o senhor Pimpa. Cabo-verdiano de nascença, são-tomense por antiguidade, recebe‑nos na sua quinta com a camisola do SL Benfica vestida. O português que fala parece saído de um compêndio de boas maneiras, dicção cuidada e nobreza palaciana. É produtor de ananases, os melhores da ilha, dizem‑nos. Vai buscar um e corta‑o às rodelas com a faca afiada. Dá‑nos a provar. O adocicado com o ácido estão na medida certa. Tal como a ilha do Príncipe.

São Tomé

A principal ilha do país perdeu a inocência de outros anos, mas continua a ser um refúgio para quem a visita.

Chegamos a São Tomé já com saudades do Príncipe e da paz que por lá se vive. Paz que veio a ser afetada pela notícia da noite anterior – um dos navios de carga de pequeno porte que faz a ligação entre as duas ilhas está desaparecido. Dias mais tarde, chegará a confirmação de oito mortos e da perda da grande maioria da carga. «Já aconteceu mais vezes», diz‑nos o motorista que nos leva ao Omali Lodge, hotel entre o aeroporto e a capital São Tomé. «É um problema, um dos problemas, que tem de ser resolvido.» Nem tudo é luz no paraíso.

Passamos o Morro da Trindade, residência oficial do presidente do país, e o monumento às vítimas do massacre de Batepá (3 de fevereiro de 1953), quando um grupo de proprietários e militares portugueses atacou habitantes locais com a acusação de uma tentativa de conspiração. Parecem resolvidas as divergências coloniais e as vias estão abertas entre os dois países. Prova disso é a Casa‑Museu Almada Negreiros. Joaquim Vítor era um dos meninos que vendiam flores aos turistas na estrada para a cascata São Nicolau. Nunca tinha ouvido falar do pioneiro do modernismo português quando brincava nas ruínas da casa onde morou a sua família – e onde terá nascido, em abril de 1893, o pequeno José Sobral de Almada Negreiros.

Rio Abade, a chegar a Água Izé. É um lugar onde há sempre mulheres a lavar a roupa e muitas cores. Vale a pena conversar com quem lá passa o dia, mas não convém chegar e fotografar tudo o que se vê. Não é nenhum safari e a população, naturalmente, não gosta.

Jejé tornou-se 3 vezes campeão nacional de surf. Tem vontade, ambição, talento. Falta-lhe patrocínios, apoios e oportunidades. Já competiu numa etapa mundial, nos Açores, graças ao esforço de alguns portugueses que vivem em São Tomé. Está todos os dias em Santana, a base da modalidade.

Joaquim comprou as ruínas da casa e é lá que funciona hoje o pequeno museu e um restaurante que está a dar que falar na ilha. Produtos locais como os búzios, o atum, a banana‑pão, erva‑mosquito e o micocó não faltam. Mas Joaquim quer mais. Gostaria que os governos português e são-tomense ajudassem na preservação da casa e da memória deste «produto» comum às duas nações. E está a fazer por isso. Sentado num dos cantos do jardim, no avental ainda posto pode ler‑se uma das frases do mestre Almada: «A alegria é a coisa mais séria da vida.»

A caminho de São João dos Angolares, passamos por Caridade. A placa está à beira da estrada, rodeada de vegetação. O nome dá que pensar, há demasiadas crianças nas roças e nas pequenas localidades a pedir doces ou material escolar. Os anos de turismo criaram o hábito de distribuir guloseimas e canetas pelos mais pequenos. A tarefa agora é a de mudar a mentalidade e fazer que os visitantes entreguem material didático e médico nos locais apropriados: escolas, hospitais, associações.

Deixámos já para trás Santana, a capital do surf em São Tomé. É lá que vive Jejé Vidal, 18 anos e estrela da terra. Já participou numa etapa do mundial da modalidade nos Açores, e debate‑se com o problema dos patrocínios para seguir uma carreira profissional. Começou com uma tábua de madeira e hoje faz parte da primeira geração de promissores surfistas são-tomenses. Traz um chapéu da Federação Portuguesa e olha para o mar com vontade. «Todos os dias entro na água. Às vezes, até de noite vou.» Nesse dia, já com o escuro a chegar, no regresso do Sul, do Parque Natural Ôbo e do pico do Cão Grande (a elevação de origem vulcânica com trezentos metros de altura), Jejé estará a sair da água, com um sorriso de criança. Foi mais um dia de treinos.

Esta é uma terra de histórias bem reais, mas também das imaginadas. Como a do barão de Água Izé, João Maria de Sousa e Almeida. Viveu entre 1816 e 1869, foi poeta e agricultor, responsável pela introdução da árvore da fruta‑pão e da cultura de cacau em São Tomé. Esta é a parte real. A parte de lenda é que o barão teria por hábito entrar na água a cavalo, num local chamado Boca do Inferno, junto à roça de Água Izé – onde as rochas rebentam com violência num canal natural – e sairia minutos mais tarde em Cascais, no local com o mesmo nome dantesco. Nunca ninguém repetiu o feito, mas algumas pessoas já perderam a vida nesta armadilha natural.

Diz a lenda que a Boca do Inferno tem ligação direta à de Cascais, em Portugal.

No Norte da ilha, as lendas dão lugar à dureza de cada dia. Vamos agora a caminho da cidade de Neves, conhecida pela sua artesanal frota pesqueira e pelas praias dos Tamarindos e da Lagoa Azul (boa opção para snorkelling e mergulho). Vamos fisgados no Santola, um restaurante aberto há cerca de quarenta anos, cuja especialidade não deixa dúvidas. Subimos ao primeiro andar da casa de madeira, como todas as outras – muitas – em seu redor. Os caminhos são de terra batida, há gente por todo o lado.

A curta distância, à beira do mar, as mulheres amanham o peixe que chegou de manhã. Vai ser aberto e posto a secar, para ser vendido no mercado principal de São Tomé, também ele uma experiência. Vitorino Pinto, tem cerca de 40 anos e está sentado na sombra, em cima dos barcos virados ao contrário. «Tenho cinco filhos, quatro morreram de doença», diz‑nos a meio de uma conversa reveladora. No olhar triste estão outras dores, como a da falta de condições do povo são-tomense em geral, a debilidade dos cuidados de saúde, a corrupção, a falta de oportunidades e de emprego. Já nos falou da fiabilidade da madeira de ocá para construir as canoas, antes da lição de política nacional: «O povo tem de dar a resposta nas urnas, são muitos anos de sacrifício.»

É de reflexão – e digestão – o regresso à capital. Volta o barulho das motorizadas e dos automóveis, o clarão amarelo dos táxis, as centenas de vendedores nas imediações do mercado e da Praça da Independência. É sexta‑feira, é noite de Pirata.

Terminamos a viagem na grande atração que é a principal discoteca/bar da ilha. Não são apenas todos os caminhos que vão lá dar, é toda a gente. À saída da cidade, à beira do mar, com espaço coberto e ao ar livre, com a água das ondas a respingar nos corpos suados pela dança, as vários tribos de São Tomé encontram‑se. Estão lá o agricultor e o pescador, a funcionária pública e a professora portuguesa, o turista italiano e o casal em lua‑de‑mel, o motorista e o político, o diretor de hotel e o empregado de mesa. Não há horas para acabar.


A música certa na visita a São Tomé e Príncipe

Ao ritmo do general João Seria
A lenda diz que foi em 1974 que começaram a tocar em espetáculos mais ou menos improvisados, que foi a emigração que os levou à Europa e a Portugal onde editaram o primeiro disco em 1981, sempre em tom de festa, o mesmo que usaram nas sessões de gravação nos jardins da Rádio de Nacional de São Tomé, já nessa altura rodeados de amigos e fãs. Duraram pouco, mas até hoje são os África Negra quem aparece no topo da hierarquia da música são‑tomense.

Entre o lançamento do disco e o desmembramento da formação original passaram apenas seis anos. Depois, dos onze músicos originais ficaram seis e hoje apenas dois dos fundadores continuam esporadicamente a subir a palcos, o guitarrista Leonildo Barros e o vocalista João Seria. Mas mesmo que longe do estrelato da segunda metade da década de 1980, dúvidas restassem quanto ao estatuto especial que têm na música são‑tomense, foi Seria, conhecido como General, quem no ano passado a norte‑americana Joss Stone chamou para em dueto cantar um dos seus sucessos.

Mas se AninhaMaia MuêAlice e Não Senhor já fazem parte da cultura nacional, a música de São Tomé não se esgota nos sucessos dos África Negra. No ano passado, nas comemorações do vigésimo aniversário da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, foi Tonecas Prazeres quem trocou abraços com Marcelo Rebelo de Sousa, a quem entregou o seu último disco, Tonecas Prazeres & AfroVungo Project. Bem mais novos, os Calemba, que misturam os ritmos africanos com as batidas pop, contam por milhões as visualizações dos vídeos no YouTube. E com um sonoridade mais próxima de reggae e hip hop, Quixote One lançou‑se no ano passado com o primeiro EP.

Seja ao ritmo do General João Seria, dos Calemba ou de Quixote One, não será por falta de oferta que não ouve a música certa na visita a São Tomé.

Crónica musical por Filipe Garcia

Texto de Ricardo Santos
Fotografias de Nuno Mota Gomes e Fernando Marques

Fonte: https://www.voltaaomundo.pt/2017/10/13/sao-tome-e-principe-duas-ilhas-um-pais/

Revista Volta ao Mundo​ na Ilha de São Tomé (Episódio 3 – RTP​ 3) VÍDEO COMPLETO

Descubra São Tomé e Príncipe na edição de Setembro da Revista Volta ao Mundo
Durante o mês de Setembro, a Volta ao Mundo está na África que fala português. Vamos às ilhas de São Tomé e Príncipe para conhecer um destino que junta ecologia e cultura, gastronomia e história.

Ao longo de quatro fins de semana (sábado às 17h50 e domingo às 20h30, na RTP3), descubra connosco uma reserva única da Biosfera e uma das nações mais pequenas do planeta. Do lado selvagem ao mais turístico há de tudo. Na televisão, na internet e na sua revista de sempre.
Veja aqui Revista Volta ao Mundo​ na Ilha de São Tomé  (Episódio 3 – RTP​ 3) VÍDEO COMPLETO

São Tomé e Príncipe – Viagem num destino ainda por descobrir

Uma viagem que é um regresso ao passado, num país onde a vida corre sem pressa, onde tudo se vai fazendo sem se pensar muito no amanhã. Os olhos estão postos neste destino tropical onde está quase tudo por fazer, por descobrir e por sonhar.

São Tomé

Embora ainda não passasse das quatro da tarde, o Sol já ia baixo quando aterrámos em São Tomé. Num instante ficou de noite. Foi o tempo de jantar, beber uma cerveja local no bar, conversar e sentir o eterno verão: manga curta, calor que faz custar a respirar, ver um céu impressionante pintado pelas estrelas. A música de fundo ia tocando baixinho. Era sobretudo kizomba, estilo comercial com batida contagiante. A música liga as pessoas, seja em que parte do mundo for. Não foi preciso muito até todos os presentes começarem a bater o pé.

Foi um regresso ao passado, depois de uma experiência de voluntariado na ilha do Príncipe. Foi como voltar a casa, quando o bafo do calor nos apanhou sem surpresa à saída do avião. É sentir que se está demasiado ligado ao segundo país mais pequeno de África, à sua natureza incrível e, sobretudo, à simpatia das pessoas, aos sorrisos dos mais velhos que ainda guardam memórias dos anos coloniais, à inocência das crianças que brincam na rua, aos jovens adultos que vivem o sonho de conseguir estudar em Portugal.

O dia seguinte começa muito cedo, às seis da manhã, já com sol e calor. Numa carrinha de nove lugares partimos à descoberta do Sul. À saída da cidade, a primeira paragem: praia Melão e a sua comunidade piscatória à beira da estrada. Na areia, as pirogas estão apontadas para o mar e os homens trabalham as redes. Do lado de lá da via, numa casa de madeira, há tempo para uma conversa com o senhor Estêvão. De pé, e agarrado à sua velha máquina de costura, fala sem desviar o olhar de cada linha de pontos que traça. As motos chinesas a quatro tempos e as carrinhas de caixa aberta a transportarem pessoas e animais vão passando entre nós e a praia.

Costureiro há vinte anos, está atarefado a terminar uma encomenda grande de uniformes. «Nos últimos meses não tenho tido mãos a medir», diz sorridente e a olhar-nos pelo canto do olho. Mais uma linha de pontos para outro lado. Ao fundo, no areal, andam uns miúdos a brincar com uma pequena e improvisada embarcação à vela. O pouco vento que sopra no pano esticado faz aqueles três velejarem, entre uns bordos junto à areia, mostrando como se fazia a alguns curiosos que os fotografam. É o tempo de mais umas calças serem feitas pelo senhor Estêvão.

São Tomé e Príncipe está cada vez mais na moda, mas ainda longe do seu enorme potencial.

Voltamos a parar, desta vez em Santana, uma comunidade maior face à realidade do país, mas, ainda assim, onde toda a gente se conhece – como é costume. Perguntamos por um rapaz que se chama Edu. Era a indicação que nos tinham dado se fôssemos a Santana. «Edu? Não conheço. Espera um pouco», diz o guia. Enquanto se tiram fotografias à baía rochosa em frente, lá está ele.

Edu Guerra tem 21 anos e é um dos surfistas da ilha, assim como o amigo Hamilton Neves, de 19, que se rendeu ao bodyboard. São cerca de vinte os que praticam estas modalidades na ilha. Quando, há oito anos, viram pela primeira vez um português a apanhar umas ondas em Santana, eram miúdos e também queriam experimentar. «Resolvemos entrar na água com tábuas de madeira e fazíamos bodyboard», conta Edu enquanto gesticula com as mãos, imitando os movimentos das ondas. Esse português ajudou-os a fazer pranchas maiores e, trabalhando a madeira, conseguiram uma tábua com melhor aspeto: pesadas, umas bicudas, outras mais arredondadas. Os anos passaram e cada vez mais portugueses apareciam a dedicar-se à modalidade, proporcionando competições entre os rapazes e trazendo de Portugal material de melhor qualidade.

Edu não quer ser profissional, mas quando sai das aulas espreita o mar e se houver condições vai buscar a prancha. Agora que terminou o 12º ano tem mais tempo, mas o que gostava mesmo era de estudar Biologia ou Educação Física e Nutrição. Vai tentar candidatar-se a uma bolsa para estudar em Portugal. Tem saudades do português que o iniciou no surf e que viveu seis anos em São Tomé. «Vamos tirar uma fotografia juntos para enviar a esse português», dizemos-lhe. Foi ele, Pedro, quem nos deu a indicação de procurar por Edu em Santana.

A cada encontro inesperado, vamos tendo a certeza que são as pessoas que mais nos marcam nestas ilhas. O caminho pela estrada continua. Sentados na parte de trás da carrinha, com a janela entreaberta, admiramos o que se vê passar. E apetece parar em cada uma das barracas de fruta para ouvir mais histórias. As buzinas das motos que nos ultrapassam, crianças a correr na berma, calor, kizomba no rádio, mulheres que levam alguidares na cabeça e seus vestidos coloridos. É um dia normal em São Tomé.

Saindo da cidade, é o verde quem manda na ilha. E a tranquilidade está sempre presente.

À medida que nos dirigimos para sul, os arredores da cidade começam a ser trocados pelo verde. Quando o guia encosta a carrinha pouco à frente de uma ponte, a tonalidade é outra. Passam a ser muitas, vestidas e manuseadas pelas mulheres que lavam a roupa no rio Abade, nascido nos picos de São Tomé e desaguado na praia de Água Izé. Debruçados no muro de proteção lateral da ponte, admiramos aquela rotina, realidade de um país pobre financeiramente, mas rico na simplicidade.

São mulheres de todas as idades que esfregam a roupa na pedra. Ensaboam, mergulham na água e, com ou sem bebé às costas, há quem cante para se animar. Dolores é uma delas. Está mais à frente, sozinha, com água até aos joelhos e de volta da roupa da família. Conta que vai lá todos os dias: «Venho às seis e às doze acabo.» Carrega no corpo umas décadas valentes, suficientes para ter memórias do seu país antes da independência, em julho de 1975.

O cacau era o petróleo de São Tomé. O país chegou a ser o maior exportador do mundo, mas parou no tempo e hoje visita-se o que resta das roças, como Água Izé, a um minuto do rio. Dá para imaginar como terá sido: senzalas alinhadas, armazéns onde fermentava e secava o cacau, peças de maquinaria ferrugentas caídas e praticamente engolidas pela vegetação, a casa grande dos patrões e o enorme hospital de dois pisos a desfazer-se, que é hoje palco para brincadeiras de criança. Também se tropeça na linha férrea quase desaparecida, por onde o cacau já seco e dentro dos sacos era transportado até ao pontão e daí para os navios.

Tudo começou em 1822, quando os primeiros cacaueiros trazidos do Brasil foram mandados plantar naquela roça por João Maria de Sousa Almeida, o barão de Água Izé. Os colonos portugueses encontraram as condições naturais ideais, trouxeram a mão-de-obra escrava e tornaram esta produção agrícola na principal do país, acima do café.

No segundo país mais pequeno de África vivem cerca de 180 mil habitantes distribuídos por duas ilhas.

Saímos da carrinha para visitar um dos locais onde a pouca produção resiste ao tempo. Crianças curiosas aparecem a correr. Há vários armazéns de teto e portas altas. Num deles está Germino. Todos os dias está ali, desde 1980. Mostra os cantos à casa e explica o processo do cacau: do campo vem o interior do fruto, uma goma branca e com cheiro intenso. Ali passa por várias fases de fermentação em tabuleiros que escondem a luz do dia, «para não perder a qualidade», até ficar rijo. Só depois é posto ao sol a secar em estufa durante oito a doze dias.

Germino leva-nos a todas as divisões. E sorri enquanto mostra como se separa o grão: «Escolho o bom e o mau, um a um». Daquele monte de grãos, seleciona para um balde os que se aproveitam, para depois serem embalados, pesados e transportados para o porto. «É exportado para Portugal. É a informação que temos. Não sei do preço. Isso é negócio do patrão.»

 

Ilha do Príncipe

Vamos numa pequena avioneta de 18 lugares. A sensação é de adrenalina. O som da hélice abafa as conversas e os passageiros estão encostados às janelas. Tentam não pensar no pior, não sabem que estão a descolar para um dos locais mais especiais do mundo. O Príncipe não é uma ilha qualquer, não é um destino turístico nem um apêndice de São Tomé. Deixa um sentimento marcado e difícil de explicar em quem lá vai. Trinta minutos depois, o que se começa a avistar é o mesmo que os navegadores portugueses viram há 545 anos. Só muda a perspetiva. Tudo está tal e qual: verde, virgem e montanhoso. O primeiro impacto é o de um cenário misterioso, escondido por algumas nuvens baixas. Ao longe vê-se um arranhão comprido na paisagem, a pista.

Depois de lá se ter passado um mês, a sensação é a de voltar a casa. Cruzamo-nos com um e outro conhecido, há sempre um cheiro inconfundível. No Príncipe, ainda que nos últimos anos tenha havido algum avanço, tudo continua muito genuíno. Não há operadores turísticos à saída da casinha do aeroporto, não há autocarros para a cidade de Santo António – designada como a mais pequena do mundo –, nem filas de táxis. Só umas motos e alguns curiosos. Quem já vem com a reserva feita para um dos poucos alojamentos tem a carrinha à espera. Se não for o caso, a situação resolve-se. Tudo se resolve no Príncipe.

Saímos do aeroporto na direção oposta à cidade. Pelo caminho de terra batida, os ziguezagues, a cortar a densa vegetação que esconde o céu, estamos no único carro a fazer o trajeto. Cruzamo-nos com algumas crianças a brincar na berma. Há uma dúzia de casas e outra de habitantes. Apenas 4% da população do país vive no Príncipe – pouco mais de sete mil habitantes.

A atribuição do estatuto de Reserva Mundial da Biosfera pela UNESCO a todo o território da ilha, em 2012, depois de um longo processo de candidatura e esforços para merecer a distinção, teve um impacto enorme de sensibilização na população. O trabalho junto das comunidades é diário e as áreas de atuação das equipas não se prendem só com a natureza e conservação, mas também com as pessoas e com o uso controlado dos recursos. Tudo em nome do desenvolvimento sustentável.

Apenas 4% da população do país vive no Príncipe, pouco mais de sete mil habitantes.

A Reserva, como património imaterial, pertence ao governo e tem uma equipa local que garante o cumprimento dos objetivos muito rigorosos, à qual se junta o apoio de Estrela Matilde, portuguesa de 31 anos que há mais de quatro não consegue largar o Príncipe. Trabalha na Fundação Príncipe Trust, organização sem fins lucrativos concentrada na conservação da natureza e pertencente ao projeto HBD (Here Be Dragons). Como bióloga, conta que este «é um lugar extraordinário» para trabalhar. Poder ver espécies que só lá existem, explorar habitats únicos com mais de 31 milhões de anos e tentar perceber como é que lá chegaram e evoluíram são os seus desafios principais.

Os projetos que Estrela conduz têm sido alvo de notícias internacionais e a ilha tomada como uma referência no que respeita aos cuidados ambientais. Exemplo disso é a recolha de garrafas de plástico – ao recolher cinquenta, cada pessoa recebe uma garrafa reutilizável de aço. Desde 2014, a Fundação já conseguiu recolher mais de 370 mil, entregando cerca de 7500. Numa ilha com pouco mais de sete mil habitantes, são números surpreendentes. Sempre que há uma recolha anunciada, a fila cresce e cresce, dando a volta à pequena praça da cidade. Todos querem levar uma garrafa da Reserva para casa, mas a maior ambição é ajudar na limpeza e, dessa forma, contribuir para a preservação do estatuto atribuído pela UNESCO.

É isso que enche Estrela de orgulho: ouvir músicas locais com letras sobre a biosfera, ver crianças a jogar sobre a biosfera, conseguir mobilizar toda a ilha para limpar o plástico ou para correr numa maratona em prol da Reserva. Para esta alentejana-principana, «é um orgulho desmedido fazer parte da ilha e da história que o Príncipe está a criar». No entanto, diz que viver nesta «Gaiola Dourada» nem sempre é fácil, mas que são as pessoas que fazem que não queira ir embora.

Há, portanto, um «vírus contagiante» que se apanha no Príncipe e que deixa todos rendidos. O mesmo aconteceu com Mark Shuttleworth, sul-africano e milionário que se apaixonou pela ilha e quis desenvolvê-la através do turismo sustentável. Assim nasceu o projeto HBD, onde os investimentos ultrapassam os 150 milhões de euros e poderão ter retorno daqui a cinquenta ou sessenta anos. Para além de empregar professores, agricultores, funcionários de hotelaria, ter aumentado o aeroporto, ser proprietária do Bom Bom Resort, a HBD tem vários projetos em desenvolvimento, como a recuperação de roças degradadas para transformá-las em pousadas ou hotéis coloniais e voltar a produzir cacau, café, ananás ou baunilha. É assim nas roças Paciência e Sundy. Assim como dois pequenos novos resorts: um na praia Macaco e outro nas praias Sundy e Margarida. A roça Sundy é a maior da ilha e foi a mais importante nos anos coloniais. No entanto, o papel que lhe está atribuído não ficou por aí. Está para sempre ligada à Física e ao que revolucionou na história da humanidade.

Não é esse o impacto que se tem quando se chega. Primeiro são as antigas casas dos trabalhadores, o hospital degradado, a casa dos patrões – a família real portuguesa –, a linha férrea, a pequena fortificação e a capela. A Física vem depois, ou até só para os mais curiosos, com uma pequena placa que conta que ali a teoria da relatividade foi provada. Exato, na ilha do Príncipe, mais concretamente na roça Sundy, quando Arthur Eddington, astrofísico inglês, durante um eclipse solar a 29 de maio de 1919, confirmou os cálculos de Albert Einstein.

O caminho até à roça Sundy vale a pena. Faz-se por uma estrada de terra batida pintada de um laranja quase vermelho e que rasga a floresta. Queríamos encontrar o caminho para uma praia que diziam ser uma das mais espetaculares: a Margarida. Depois da boleia, a indicação que tínhamos era que, estando na roça, havia um trilho para seguir a pé. Perguntamos o caminho a um grupo de rapazes que joga à bola. O mais velho responde que nos íamos perder. Chama-se Jemilson e faz questão de nos acompanhar. Tem 18 anos, fala pouco e estuda na cidade.

Bom Bom Resort, Ilha do Príncipe

Até à praia são 45 minutos por um trilho já gasto e à sombra de árvores que uma só pessoa não consegue abraçar. Pelo caminho explica algumas curiosidades sobre os frutos, fala sobre a vida no Príncipe. Conta que nos últimos dias tem ido a pé para a escola, duas horas de caminho. Não há transporte escolar por falta de combustível. O Príncipe tem de gerir a energia que vem de São Tomé.

O barco que parte da ilha maior traz combustível, carga, animais, mantimentos para os supermercados e algumas pessoas. Só parte semanalmente da outra ilha quando está cheio. E muitas vezes demora, também pelo mau tempo ou por avarias. Naquela semana já pouca ou nenhuma energia havia.

As palavras faltam quando se chega à praia Margarida. Areia dourada, palmeiras quase a cair na água transparente e céu limpo. Um homem, de pé na ponta das rochas, pesca o almoço para o resto da família no areal. Jemilson pede-lhe emprestada a catana, trepa a um coqueiro e, lá de cima, começa a deixar cair cocos. Um para cada pessoa que estava na praia. Deu para matar a sede e trincar qualquer coisa. No regresso à Sundy, outra caminhada de uma hora a subir, diz que o seu sonho é ser jogador de futebol profissional. Rimo-nos a discutir qual era o melhor clube português, vermelho ou verde, e quem era o melhor jogador do mundo – Ronaldo ou Messi. É difícil acompanhar-lhe o ritmo.

Chegamos ao ponto de partida agradecidos pela atitude do Jemilson, que não lhe passa sequer pela cabeça pedir alguma coisa em troca. Damos um abraço, prometemos que não esqueceremos o momento. A cada encontro inesperado, vamos tendo a certeza que são as pessoas que mais nos marcam nestas ilhas.



Dicas de viagem

Moeda: 1 euro – 24.500 dobras STD
Fuso horário: GMT
Idioma: Português
Quando ir: o clima é tropical e húmido, estando sempre quente. A gravana ocorre entre junho e agosto, quando o tempo é mais seco, havendo menor precipitação e as temperaturas são mais baixas. A estação da chuva vai de outubro e a maio, o calor, independentemente da hora, do dia e da noite, é sempre elevado.

Informações

É aconselhável ir à Consulta do Viajante para saber as vacinas e cuidados de saúde a ter antes, durante e após a viagem. Consultar a Embaixada de São Tomé e Príncipe em Lisboa sobre eventual necessidade de visto, dependendo do tempo de permanência. A taxa turística à saída de São Tomé no aeroporto tem um custo de 20 euros.

 

Ir

A TAP tem três voos semanais com escala em Acra, no Gana, e preços a partir de 780 euros. Voar de São Tomé para o Príncipe custa cerca de 100 euros.

Dormir

SÃO TOMÉ

Pestana São Tomé
Único hotel de cinco estrelas da ilha, a dez minutos a pé do centro. Tem 115 quartos, piscina, ginásio, spa, discoteca, casino e restaurante tradicional e buffet.
Av. Marginal 12 de Julho, 851
Tel.: (+239) 2244 503
Quarto duplo a partir de 142 euros
pestana.com

Omali Lodge São Tomé
Hotel renovado com serviço de alta qualidade. Tem 30 quartos e suites e restaurante afamado em São Tomé. A 5 minutos do aeroporto, frente à marginal da praia Lagarto.
Praia do Lagarto, São Tomé
Tel.: (+239) 222 2350
Quarto duplo a partir de 207 euros
omalilodge.com

Club Santana Beach & Resort
A 15 quilómetros da cidade. Opção indicada para quem vai em família. Tem praia privativa, restaurante e piscina sobre a baía, 31 bungalows – standard ou suite.
Praia Messias Alves, Santana
Tel.: (+239) 224 2400
Bungalow a partir de 185 euros
clubsantana.com

ILHA DO PRÍNCIPE

Bom Bom Island Resort
São 19 bungalows em duas praias paradisíacas e desertas com uma piscina pelo meio. A mais recente novidade é o centro de massagens. Rúben Fortuna – responsável pelas atividades turísticas – poderá organizar passeios de jipe com paragens nas roças, de barco até outras praias, observação de baleias, mergulho, snorkelling. caiaques e pranchas para paddle.
Bom Bom, Ilha do Príncipe
Tel.: (+239) 225 1114
Bungalow duplo a partir de 350 euros
bombomprincipe.com

Comer

SÃO TOMÉ

Dona Teté
Local obrigatório para provar os sabores tradicionais. Destaque para o peixe fresco e bem grelhado. O restaurante é ao ar livre, tendo também uma zona com um telheiro. O jantar ronda os 10 euros. Fica muito perto do hotel Pestana e da discoteca Pirata.
Tel.: +239 990 4353
facebook.com/restaurantedonatete

Roça de São João
A roça de João Carlos Silva é uma sugestão para provar pratos que combinam sabores tradicionais com a criatividade do chef. Menus de degustação por 15 euros.
São João dos Angolares, São Tomé
Tel.: (+239) 991 1069
facebook.com/rocasaojoao

Casa-Museu Almada Negreiros
O intelectual nasceu em São Tomé e Príncipe em 1893, tendo vivido nesta roça, que foi transformada em casa-museu e restaurante. Vista impressionante sobre o verde, com artesanato à venda e comida saborosa para provar.
Roça Saudade, Monte Café
Tel.: (+239) 991 9172

ILHA DO PRÍNCIPE

Associação Cultural Rosa Pão
Só com reserva, como em qualquer cantinho da cidade de Santo António. É para muitos o melhor restaurante da ilha. Dona Rosita está sempre pronta para tratar bem quem for por bem, num espaço pequeno e simples ao lado da Rádio Regional do Príncipe.

Mira Rio
Único café da cidade. Serve refeições leves e é, também, um dos poucos sítios onde há wi-fi.


Texto de Nuno Mota Gomes
Fotografias de Fernando Marques

Fonte: http://www.voltaaomundo.pt/2017/01/06/sao-tome-e-principe-onde-o-tempo-parou-e-nao-avisou/