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São Tomé e Príncipe: Duas ilhas, Um País

Sustentabilidade, progresso, ecoturismo, gastronomia e personagens inesquecíveis. São Tomé e Príncipe é um projeto para o futuro. E está a acontecer hoje. Para ler e ver nos programas de televisão da Volta ao Mundo na RTP 3.

 

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Ilha do Príncipe

É Reserva da Biosfera e um exemplo para o mundo quanto a sustentabilidade ambiental e desenvolvimento das populações locais. Além disso, é um pequeno paraíso.

De quatro a doze horas é o tempo que leva a viagem de barco entre São Tomé e o Príncipe. Tudo depende do estado da embarcação, se é de carga ou de passageiros, se o mar está bravo ou calmo como um espelho. Optamos pelo avião e por 35 minutos de voo para cumprir cerca de 140 quilómetros de distância entre as duas ilhas. Nem dá tempo para uma soneca depois do pequeno‑almoço. A tripulação é da Europa de Leste, nota‑se pelo sotaque das comunicações. Os passageiros são cerca de trinta, metade são‑tomenses. Há um casal de alemães que não sabem bem o que esperar do destino para onde voam. Uma espanhola e um asiático leem com gula um guia sobre a ilha do Príncipe.

O avião vai perdendo altitude de forma rápida, furando o capacete de nuvens que já é uma imagem de marca deste arquipélago africano, um dos mais pequenos países do mundo. E é a bater as dez da manhã que os tons de verde e azul do mar começam a ser elogiados desde a janela do avião. Estamos a chegar ao Príncipe. E depressa vamos perceber por que razão a ilha foi declarada Reserva da Biosfera pela UNESCO em 2012.

Marina Pereira está à espera para nos levar à Roça Sundy. É uma das muitas funcionárias do grupo HBD, criado pelo sul‑africano Mark Shuttleworth. Diz a lenda local que o empresário (e milionário) terá sobrevoado a ilha no seu avião particular e que a beleza e a imponência da natureza lhe terão chamado a atenção. Informou‑se, visitou o território e resolveu investir no turismo, mas não só. Hoje a empresa é a principal entidade privada na ilha a apoiar o desenvolvimento sustentável, sem nunca esquecer o crescimento económico e social. Não é disso que falamos na curta viagem até à Roça Sundy. Estamos mais entretidos a tentar orientar‑nos nesta jangada verde de dezasseis quilómetros de comprimento por oito de largura.

Marina é açoriana, já viveu em Angola e o Príncipe está a ser «uma experiência única e positiva». É ela quem o diz enquanto conduz a pick-up pelas estradas que passam depressa a picadas. Chegamos ao paralelepípedo que indica a proximidade à antiga roça colonial, a primeira do arquipélago a receber um pé de cacau. Foi em 1822 e história não falta por aqui. Caminhamos pelo meio da relva alta. Há jovens e adultos a jogar à bola no relvado natural. Da creche – a funcionar num rés‑de‑chão de um dos edifícios – saem as gargalhadas e cantilenas normais das crianças. Somos convidados a entrar e a participar na cantoria. Impossível resistir.

Foi na Sundy que, em maio de 1919, o astrónomo inglês Sir Arthur Eddington comprovou a Teoria Geral da Relatividade de Albert Einstein. Aconteceu durante um eclipse solar, que permitiu analisar a deflexão da luz. Trocando por miúdos – e está tudo explicado numa placa alusiva ao acontecimento histórico –, provou‑se que o espaço e o tempo não eram absolutos. Foi uma das descobertas científicas mais importantes da ciência e pouca gente sabe que ocorreu aqui, na Sundy, a forma simplificada com que foi batizado o primeiro proprietário da roça. De senhor Dias a Sundy foi um passo de língua e de tempo.

A roça está dividida em dois espaços: a casa principal e os antigos secadores e as sanzalas e as cavalariças. Cerca de quinhentas pessoas vivem nas proximidades e o ponto de encontro é o terreiro central, aquele dos jogos de futebol improvisados. O antigo hospital, junto ao principal acesso, é só uma sombra do que já foi, mas tem o encanto e o potencial de uma construção que a selva está a encarregar-se de cobrir. Marina leva‑nos agora para a casa principal, onde serão distribuídos os quartos e feitas as apresentações. Manuel Barbosa é o diretor da Roça Sundy. Já correu mundo em trabalho e em prazer e encontrou na ilha um refúgio perfeito. «É um lugar especial, cheio de história e onde se sente a tranquilidade em cada canto.» Sim, Manuel. Ainda agora chegámos e já estamos a senti-la.

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É tempo para uma bruschetta com tomate assado, presunto do Príncipe e micocó – uma das mais utilizadas ervas da ilha, presente nos principais pratos. Dizem que o seu chá é afrodisíaco. Os próximos dias o dirão. Ou não. Segue‑se polvo, coco e pudim de pão.

As baterias estão carregadas e agora é Ofreu Aurora, nascido e criado por aqui, que serve de cicerone. É um experiente guia no que diz respeito à flora e à fauna. Ainda não tem carta de condução, por isso oferecemo‑nos para conduzir pela estrada sinuosa e lamacenta. Ofreu tem o cabelo com rastas e estas encontram‑se no cocuruto, presas por um elástico. Podia ser Éder ou Salvador Sobral, mas nenhum desses saberá tão bem identificar espécies comestíveis à beira de um caminho tão encharcado como este. Não para de chover há bem mais de duas horas. «Chuva mulher», ri‑se Ofreu. É o nome dado por cá – pelos homens – à água que cai do céu de forma persistente e aborrecida. «Chuva homem é outra coisa», diz‑nos. «É mais bruta e rápida.»

E nisto chegamos à praia, daquelas com vegetação quase até ao mar. Escondido na floresta já está o esqueleto daquilo que vai ser, nos próximos meses, o Sundy Praia, a nova unidade do grupo HBD – um resort de luxo com os pés na areia.

 

Chegar à Praia Banana de barco é uma experiência única. É uma fatia do paraíso.

 

A sobrevoar a Ilha do Príncipe. Lá em baixo está o Bom Bom Resort Island e as duas praias a que se tem direito.

Voltamos à roça para uma prova de cacau. Afinal, foi aqui que tudo começou. Há fresco, em vinagre, como muesli, sob a forma de creme ou torrado. A noite caiu depressa como sempre acontece nas imediações da linha do equador. Hoje vamos sair para jantar na capital da ilha, Santo António. É uma cidade que provoca sentimentos contraditórios. Por um lado, pobre, mal cuidada, quase a roçar o abandono. Por outro, cheia de crianças e jovens, movimentada para os seus cinco mil habitantes, com uma loja de cada ramo para os servir – padaria, mercearia, de recordações ou de venda de tecidos.

Paramos no Mira Rio, o café com vista de rio, ponto principal para os estrangeiros que cá vivem – a internet é um fator convidativo. Tem máquina de café de cápsula e cerveja nacional, sempre sem rótulo, bem como portuguesa. Próxima paragem: a associação cultural e restaurante Rosa Pão. A mesa está posta no alpendre. Já lá está sentada uma família de quatro pessoas e mais três documentaristas que andam a filmar pelo Príncipe. Todos franceses. Portugueses, além de nós, há mais. Uns trabalham para o HBD, outros para a Reserva da Biosfera.

A comida começa a chegar, as conversas cruzam‑se e três são-tomenses aproximam‑se. «Boa noite, sejam bem‑vindos à ilha do Príncipe.» Um está de galochas sujas pela lama, outro de havaianas e o terceiro de ténis. Trazem três violas e uma harmónica. «Somos a Banda Unida.» Os sons de África acompanham agora a barracuda, um dos muitos peixes desta costa. «Ter uma vida boa nesta terra não é fácil não», canta a Banda Unida. «São Tomé e Príncipe, terra linda», diz o refrão. E é assim que vamos embalados de regresso à Sundy. No dia seguinte há muito para fazer.

Começamos com uma visita ao Precipício, tem de ser. É deste miradouro que se tem a melhor vista sobre a praia Banana, um dos cartões‑postais da ilha. Seguimos selva dentro para a Roça Paciência, outra das estruturas deixadas pelos portugueses. Tem o mesmo aspeto deteriorado pelo tempo, mas coisas novas estão a surgir por aqui. Geraldo Cravid tem o sorriso de quem gosta de receber gente. É o responsável pela área agrícola, a nova vida da Paciência. Daqui saem legumes, frutos, ervas aromáticas, café e cacau, além das compotas servidas aos pequenos‑almoços nos principais hotéis do Príncipe.

Ainda antes do almoço temos encontro marcado com Yodi, um dos mais experientes guias do país. Cortamos por estradas de terra, avistamos o Boné do Jóquei, um ilhéu ao largo que tem o formato do nome, e paramos no início do T7, um dos oito que constituem os Trilhos da Biosfera marcados na ilha. São 45 minutos de caminhada sobre pedras, terra e lama. É acessível para toda a gente com mobilidade, não sendo aconselhável a crianças pequenas nem adultos de idade avançada.

Pelo caminho, Yodi vai falando das espécies, da história da cascata para onde caminhamos – a Oquêpipi. «Antigamente, os donos da roça vinham passar o fim de semana para aqui, até construíram um caminho. Com o tempo, ficou coberto e só muito recentemente voltámos a descobri‑lo.» A humidade é elevada e o som da cascata está cada vez mais perto. A queda de água tem mais de setenta metros de altura, segundo Yodi, de 36 anos, com quatro filhos. Com a catana corta um ramo e dá‑nos a provar. A água que de lá sai está filtrada pela natureza.

A lagoa que se forma pela cascata pede um mergulho, apesar da água fria. Ficam dois conselhos: não mergulhar sem ver o fundo e não beber a água que ali chega. É tempo de fazer o caminho inverso até ao jipe. E deste até Santo António onde nos espera Dona Zinha. É a típica matriarca africana e tudo se desenvolve em seu redor. Aquilo que já foi uma barraca sem condições é hoje um modesto restaurante com tábuas corridas a servir de mesas e bancos. Banana assada, peixe e caranguejo são os reis da festa, apesar do atraso de quase duas horas com que chegámos. «Já está tudo frio…», lamenta Dona Zinha, naquela espécie de raspanete de que nos lembramos quando éramos crianças e ficávamos na rua a brincar até mais tarde.

Há um passadiço de madeira que já é mítico no Príncipe. Liga a ilha ao mais famoso dos ilhéus da região – o Bom Bom. Faz parte de um resort que não precisa de publicidade nem de pruridos quanto a elogios. É um pequeno paraíso e basta ali chegar para se perceber. Sérgio Duarte, diretor‑geral, fala‑nos da pesca ao marlim que tornou conhecida a enseada, refere o ecoturismo como motor da ilha, apresenta as novidades do Bom Bom e salienta a experiência vivida por cada pessoa que chega: «Há quem venha passar dois ou três dias e marque logo para o ano seguinte. E entende‑se porquê.» Além do insuperável trinómio bungalow‑praia-palmeira, há mergulho, pesca, caminhadas e passeios de barco para fazer.

Afinal, esta é a ilha onde mais de cinquenta por cento do território é área protegida. É aqui que se trocam garrafas de plástico por outras amigas do ambiente, que se incentiva a reciclagem desde a escola primária, que se combate o turismo de massas com o turismo de consciência. Estrela Matilde fala de tudo isto com paixão. Portuguesa de Sines, já é sãotomense por mérito. Trabalha para a Reserva da Biosfera e é uma das pessoas que dão a cara em defesa do Príncipe. Elogia o trabalho feito pelo governo da ilha e pelas empresas estrangeiras que têm apostado no território, mas acima de tudo gosta de realçar a maior riqueza que encontrou: «É óbvio que esta é uma reserva única da biosfera, com uma diversidade que chega a ser maior do que a das ilhas Galápagos. Isso é impressionante, mas não tenho dúvidas de que são as pessoas quem mais faz a diferença aqui.»

Uma dessas pessoas é o senhor Pimpa. Cabo-verdiano de nascença, são-tomense por antiguidade, recebe‑nos na sua quinta com a camisola do SL Benfica vestida. O português que fala parece saído de um compêndio de boas maneiras, dicção cuidada e nobreza palaciana. É produtor de ananases, os melhores da ilha, dizem‑nos. Vai buscar um e corta‑o às rodelas com a faca afiada. Dá‑nos a provar. O adocicado com o ácido estão na medida certa. Tal como a ilha do Príncipe.

São Tomé

A principal ilha do país perdeu a inocência de outros anos, mas continua a ser um refúgio para quem a visita.

Chegamos a São Tomé já com saudades do Príncipe e da paz que por lá se vive. Paz que veio a ser afetada pela notícia da noite anterior – um dos navios de carga de pequeno porte que faz a ligação entre as duas ilhas está desaparecido. Dias mais tarde, chegará a confirmação de oito mortos e da perda da grande maioria da carga. «Já aconteceu mais vezes», diz‑nos o motorista que nos leva ao Omali Lodge, hotel entre o aeroporto e a capital São Tomé. «É um problema, um dos problemas, que tem de ser resolvido.» Nem tudo é luz no paraíso.

Passamos o Morro da Trindade, residência oficial do presidente do país, e o monumento às vítimas do massacre de Batepá (3 de fevereiro de 1953), quando um grupo de proprietários e militares portugueses atacou habitantes locais com a acusação de uma tentativa de conspiração. Parecem resolvidas as divergências coloniais e as vias estão abertas entre os dois países. Prova disso é a Casa‑Museu Almada Negreiros. Joaquim Vítor era um dos meninos que vendiam flores aos turistas na estrada para a cascata São Nicolau. Nunca tinha ouvido falar do pioneiro do modernismo português quando brincava nas ruínas da casa onde morou a sua família – e onde terá nascido, em abril de 1893, o pequeno José Sobral de Almada Negreiros.

Rio Abade, a chegar a Água Izé. É um lugar onde há sempre mulheres a lavar a roupa e muitas cores. Vale a pena conversar com quem lá passa o dia, mas não convém chegar e fotografar tudo o que se vê. Não é nenhum safari e a população, naturalmente, não gosta.

Jejé tornou-se 3 vezes campeão nacional de surf. Tem vontade, ambição, talento. Falta-lhe patrocínios, apoios e oportunidades. Já competiu numa etapa mundial, nos Açores, graças ao esforço de alguns portugueses que vivem em São Tomé. Está todos os dias em Santana, a base da modalidade.

Joaquim comprou as ruínas da casa e é lá que funciona hoje o pequeno museu e um restaurante que está a dar que falar na ilha. Produtos locais como os búzios, o atum, a banana‑pão, erva‑mosquito e o micocó não faltam. Mas Joaquim quer mais. Gostaria que os governos português e são-tomense ajudassem na preservação da casa e da memória deste «produto» comum às duas nações. E está a fazer por isso. Sentado num dos cantos do jardim, no avental ainda posto pode ler‑se uma das frases do mestre Almada: «A alegria é a coisa mais séria da vida.»

A caminho de São João dos Angolares, passamos por Caridade. A placa está à beira da estrada, rodeada de vegetação. O nome dá que pensar, há demasiadas crianças nas roças e nas pequenas localidades a pedir doces ou material escolar. Os anos de turismo criaram o hábito de distribuir guloseimas e canetas pelos mais pequenos. A tarefa agora é a de mudar a mentalidade e fazer que os visitantes entreguem material didático e médico nos locais apropriados: escolas, hospitais, associações.

Deixámos já para trás Santana, a capital do surf em São Tomé. É lá que vive Jejé Vidal, 18 anos e estrela da terra. Já participou numa etapa do mundial da modalidade nos Açores, e debate‑se com o problema dos patrocínios para seguir uma carreira profissional. Começou com uma tábua de madeira e hoje faz parte da primeira geração de promissores surfistas são-tomenses. Traz um chapéu da Federação Portuguesa e olha para o mar com vontade. «Todos os dias entro na água. Às vezes, até de noite vou.» Nesse dia, já com o escuro a chegar, no regresso do Sul, do Parque Natural Ôbo e do pico do Cão Grande (a elevação de origem vulcânica com trezentos metros de altura), Jejé estará a sair da água, com um sorriso de criança. Foi mais um dia de treinos.

Esta é uma terra de histórias bem reais, mas também das imaginadas. Como a do barão de Água Izé, João Maria de Sousa e Almeida. Viveu entre 1816 e 1869, foi poeta e agricultor, responsável pela introdução da árvore da fruta‑pão e da cultura de cacau em São Tomé. Esta é a parte real. A parte de lenda é que o barão teria por hábito entrar na água a cavalo, num local chamado Boca do Inferno, junto à roça de Água Izé – onde as rochas rebentam com violência num canal natural – e sairia minutos mais tarde em Cascais, no local com o mesmo nome dantesco. Nunca ninguém repetiu o feito, mas algumas pessoas já perderam a vida nesta armadilha natural.

Diz a lenda que a Boca do Inferno tem ligação direta à de Cascais, em Portugal.

No Norte da ilha, as lendas dão lugar à dureza de cada dia. Vamos agora a caminho da cidade de Neves, conhecida pela sua artesanal frota pesqueira e pelas praias dos Tamarindos e da Lagoa Azul (boa opção para snorkelling e mergulho). Vamos fisgados no Santola, um restaurante aberto há cerca de quarenta anos, cuja especialidade não deixa dúvidas. Subimos ao primeiro andar da casa de madeira, como todas as outras – muitas – em seu redor. Os caminhos são de terra batida, há gente por todo o lado.

A curta distância, à beira do mar, as mulheres amanham o peixe que chegou de manhã. Vai ser aberto e posto a secar, para ser vendido no mercado principal de São Tomé, também ele uma experiência. Vitorino Pinto, tem cerca de 40 anos e está sentado na sombra, em cima dos barcos virados ao contrário. «Tenho cinco filhos, quatro morreram de doença», diz‑nos a meio de uma conversa reveladora. No olhar triste estão outras dores, como a da falta de condições do povo são-tomense em geral, a debilidade dos cuidados de saúde, a corrupção, a falta de oportunidades e de emprego. Já nos falou da fiabilidade da madeira de ocá para construir as canoas, antes da lição de política nacional: «O povo tem de dar a resposta nas urnas, são muitos anos de sacrifício.»

É de reflexão – e digestão – o regresso à capital. Volta o barulho das motorizadas e dos automóveis, o clarão amarelo dos táxis, as centenas de vendedores nas imediações do mercado e da Praça da Independência. É sexta‑feira, é noite de Pirata.

Terminamos a viagem na grande atração que é a principal discoteca/bar da ilha. Não são apenas todos os caminhos que vão lá dar, é toda a gente. À saída da cidade, à beira do mar, com espaço coberto e ao ar livre, com a água das ondas a respingar nos corpos suados pela dança, as vários tribos de São Tomé encontram‑se. Estão lá o agricultor e o pescador, a funcionária pública e a professora portuguesa, o turista italiano e o casal em lua‑de‑mel, o motorista e o político, o diretor de hotel e o empregado de mesa. Não há horas para acabar.


A música certa na visita a São Tomé e Príncipe

Ao ritmo do general João Seria
A lenda diz que foi em 1974 que começaram a tocar em espetáculos mais ou menos improvisados, que foi a emigração que os levou à Europa e a Portugal onde editaram o primeiro disco em 1981, sempre em tom de festa, o mesmo que usaram nas sessões de gravação nos jardins da Rádio de Nacional de São Tomé, já nessa altura rodeados de amigos e fãs. Duraram pouco, mas até hoje são os África Negra quem aparece no topo da hierarquia da música são‑tomense.

Entre o lançamento do disco e o desmembramento da formação original passaram apenas seis anos. Depois, dos onze músicos originais ficaram seis e hoje apenas dois dos fundadores continuam esporadicamente a subir a palcos, o guitarrista Leonildo Barros e o vocalista João Seria. Mas mesmo que longe do estrelato da segunda metade da década de 1980, dúvidas restassem quanto ao estatuto especial que têm na música são‑tomense, foi Seria, conhecido como General, quem no ano passado a norte‑americana Joss Stone chamou para em dueto cantar um dos seus sucessos.

Mas se AninhaMaia MuêAlice e Não Senhor já fazem parte da cultura nacional, a música de São Tomé não se esgota nos sucessos dos África Negra. No ano passado, nas comemorações do vigésimo aniversário da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, foi Tonecas Prazeres quem trocou abraços com Marcelo Rebelo de Sousa, a quem entregou o seu último disco, Tonecas Prazeres & AfroVungo Project. Bem mais novos, os Calemba, que misturam os ritmos africanos com as batidas pop, contam por milhões as visualizações dos vídeos no YouTube. E com um sonoridade mais próxima de reggae e hip hop, Quixote One lançou‑se no ano passado com o primeiro EP.

Seja ao ritmo do General João Seria, dos Calemba ou de Quixote One, não será por falta de oferta que não ouve a música certa na visita a São Tomé.

Crónica musical por Filipe Garcia

Texto de Ricardo Santos
Fotografias de Nuno Mota Gomes e Fernando Marques

Fonte: https://www.voltaaomundo.pt/2017/10/13/sao-tome-e-principe-duas-ilhas-um-pais/

São Tomé – Um Sonho Real

Para mim … para você





Aproveitando as profundas raízes de São Tomé com William Aliotti e Beyrick de Vries
Nós estamos rolando abaixo a espinha dum vulcão antigo, caindo para baixo ao mar. Fora da janela é a cor da terra profunda, a cor de uma ilha que foi virada de dentro para fora, expondo suas tripas férteis e barriga verde escuro. Gigante palma fronds alta cinco o carro como nós torcer em torno da trilha da selva com 50 Cent e Lucky Dube montando espingarda. Lucky’s crooning agora, dizendo-nos, ‘Boas coisas vêm para aqueles, que saem e fazê-los acontecer.’
Claramente Lucky nunca tentou encontrar uma estrada para a praia na costa oeste de São Tomé.
“Eu acho que está aqui”, diz John Micheletti. ‘A baía que vimos no mapa’ Ele está apontando para fora da janela, mas tudo o que podemos ver é a mesma fita espessa de selva que nos cercou durante a última hora, como nós tentamos sem sucesso para cutucar o nariz do Toyota Prada para a praia. John desliga a estrada em uma trilha estreita que corta no mato. Ramos claw as portas como ele cutuca o carro mais para baixo a trilha, mal o suficiente para duas pessoas para caminhar lado a lado.
“Não acho que seja uma estrada”, diz Beyrick de Vries do banco de trás. Há um baque oco como o chassi conecta uma corcova de rock, seguido por um som de moagem que diminui o carro para baixo, mas é impossível virar. John empurra com mais força o acelerador. O carro pára e é catapultado para uma clareira. À frente de nós encontra-se a praia onde palmeiras impossivelmente altas mergulhar até a costa. Além disso, uma brisa onshore lambe a parte traseira de um beachbreak wedging.
“Rampas!”, Grita Beyrick, e começamos a tirar as tábuas do telhado.




São Tomé está localizado ao largo da costa oeste da África no Golfo da Guiné, uma mancha escura que sobe abruptamente do mar. Junto com seu gêmeo menor, Príncipe, as ilhas fazem parte da Linha de Camarões, uma cadeia de 900 quilômetros de vulcões que se estendem desde o interior da Nigéria até as profundezas do Oceano Atlântico.
A ilha inteira é na verdade um vulcão, formado por hot spot que tem constantemente borbulhado lava do manto da Terra ao longo de milênios. O mesmo tipo de atividade vulcânica forjou as ilhas do Havaí e tem impregnado São Tomé com seu solo escuro e litoral enrugado. Um litoral que, na maior parte, permanece inexplorado.
A exceção é ao longo da costa leste, onde nossa equipe eclética se reuniu como o começo de uma piada ruim: William Aliotti, um francês nas Ilhas do Caribe, Beyrick de Vries da África do Sul e John Micheletti da Nigéria. Porém, dificilmente éramos os primeiros surfistas a visitar esta antiga colónia portuguesa.

 

 

Em 2001, Sam George e Randy Rarick tinham feito o seu caminho aqui com o lendário fotógrafo John Callahan. George escreveu que ele pensava que eles eram pioneiros na divertida e certa quebra de ponto que encontraram, até que ele foi unido na água por um bando de crianças de São Tomé e Prancha, montados em madeira. Foi uma descoberta surpreendente.
São Tomé é isolado, estando a 200 milhas do continente, contudo era aqui uma cultura da equitação da onda que a hipótese de George tinha evoluído independentemente da influência dos Polynesians. Ele afirmou que a ilha possui uma prova definitiva de que o surf é uma autêntica tradição africana. Prova como o conselho de 12 anos de idade, Jardel Félix detém debaixo do braço quando o encontramos no primeiro dia de nossa viagem.




 

A placa tem quatro pés de comprimento, com trilhos finos e comprimidos e um convés inferior enrolado que termina em um quadrado afiado. O nariz largo é redondo e na maior parte simétrico, à exceção de um dobra no trilho esquerdo onde o machado usado para cinzelá-lo tinha estilhaçado a parte contínua de madeira.
“Este é meu tambua”, diz Jardel orgulhosamente. Este é o meu conselho.
É tarde e o sol tropical desabotoou seu punho fervente. O ar é quente mas agradável. Nós ainda estamos molhados de surfar uma ruptura de ponto zippy na frente da vila de Santana onde um grupo de miúdos em uma flotilha de arte de surf se juntou a nós, montando as metades batidas de um propulsor, um bodyboard velho e até mesmo um bloco de Styrofoam. Mas principalmente eles estavam em tambuas, as tábuas toscas feitas da árvore de acácia.
Tínhamos ouvido falar da cena de surf caseiro de São Tomé e esperávamos encontrar esses surfistas locais na água. Nós não tínhamos esperado encontrá-los estourando ares.
Ao contrário dos jovens do interior, Jéjé Camblé estava montando um fresco 6’0 Chili. Toda vez que ele fazia uma grande reviravolta ou virava um reverso frontal, o pequeno pacote estalava em elogios. Seu rosto se esticou em um largo sorriso quando ele remou até nós e se apresentou em português.
Jéjé depois nos diz que ele começou a surfar em um tambua depois de ver um expat chamado Peter montando ondas fora de sua aldeia. “Quando eu vi o surf pela primeira vez, pensei que fosse algum tipo de magia”, diz ele. – Como andar sobre a água.
Logo descobriu que São Tomé tinha seus próprios ciclistas e, com sua ajuda, esculpiu sua prancha. Começou a bellyboarding o whitewash, então travando faces abertas. Em pouco tempo ele estava no backline.
“Durante muito tempo pensei que a nossa geração fosse a primeira a surfar com tábuas de madeira em São Tomé”, diz o jovem de 17 anos. – Mas então comecei a perguntar aos adultos. Um deles me disse que não, estávamos surfando essas placas há muito tempo, quando eu tinha sete anos. Então eu perguntei a um homem que tinha 50 anos, e ele disse o mesmo. Ele disse que quando eles eram crianças, eles estavam surfando com tábuas de madeira já. Então eu perguntei a minha avó, ela tem 77 anos, e ela disse de volta nos dias em que ela era minha idade, os mais jovens surfaram com tábuas de madeira. Eles cavalgaram apenas por diversão.
Além de um turbilhão de turistas, São Tomé permanece largamente isolado do mundo exterior. As faixas da ilha não têm eletricidade e a economia depende da pesca e das culturas de rendimento. Os poucos pedaços de equipamento de surf moderno vêm por meio do piloto ocasional de linha aérea que surfa e um punhado de expatriados portugueses. Mas São Tomé é o ponto de desembarque de um cabo de fibra óptica de alto mar que liga a África à Europa e tem excelente conectividade.
Na manhã seguinte, encontramos a tripulação de Santana pendurada na parede de uma antiga igreja caiada que fica na beira da água. Eles não são atraídos para lá apenas por sua piedade. A parede oferece o ponto de vista perfeito para verificar as ondas e pegar sinal Wi-Fi gratuito da igreja. Com os polegares rolando, eles ficam presos aos seus telefones, conectados a seus heróis em todo o mundo cortesia do bom Deus.
“Se eu quiser treinar meu trem, eu vejo Tom Curren, ou Mick Fanning”, diz Jéjé, levantando os olhos do telefone. ‘Se eu quiser progredir no surf, vejo vídeos de Julian Wilson e Gabriel Medina. Se quero ser inspirado, vejo Andy Irons.
Ele pronuncia o nome de Irons com reverência, seu sotaque português desenhando as sílabas em um shhh longo.

 




De Santana a estrada abraça o litoral em direção ao sul, dando lugar a baías impenetráveis ​​que nós circumnavigate dirigindo para o interior. Tínhamos varrido o mesmo litoral no Google Earth antes de chegar, marcando possíveis configurações, registrando coordenadas GPS. Mas no chão, entre o esmagamento da folhagem grossa, estamos rapidamente desorientados.
John assume o comando, combinando os mapas com seu telefone GPS, guiando o carro para o oeste ao longo das estradas de terra tortuosa até encontrar um caminho para a praia ou não pode conduzir mais longe. Depois saímos e caminhamos.
“Você está brincando comigo?”, Diz Beyrick no final de uma saída a pé. A banda de arbustos densos que acabamos de percorrer dá lugar a uma baía em forma de crescente. À nossa esquerda é um afloramento rochoso onde um blowhole brotos de plumas de água para o ar como ondas atingiu o promontório, em seguida refract em uma tigela esquerda. O vento está em terra, mas as ondas são surpreendentemente bem formadas e poderosas.
“Isso me lembra tanto as configurações na Costa Rica”, diz William fora na programação, em meio entre pontas sky-high. – Só que não há ninguém aqui.
Naquela noite em Santana contamos a João, um expatriado português que de vez em quando guia os surfistas que visitam a ilha, que encontramos a onda no buraco. Ele olha para nós interrogativamente e encolhe os ombros, “Eu não conheço esta onda.”




No dia seguinte, estamos carregando o carro quando William pergunta: “Quem tem música?” Mas os nossos iPhones são inúteis no velho sistema de som do Prada, um frontloader e um tape deck. Em vez disso, vamos fazer o nosso caminho para o mercado onde encontramos cópias de bootlegged 50 Cent e Lucky Dube entre pilhas de frutas e peixes. A dupla torna-se a trilha sonora para a qual navegamos pela costa oculta de São Tomé, encontrando o nosso caminho para praias e baías onde não temos certeza se somos os primeiros a montar estas ondas em nossos tambuas modernos. Nós queremos saber o que as cunhas punchy faria no offshores estação seca e contemplar as lajes que tínhamos ouvido falar mais ao norte. Mas principalmente nós apenas navegar e caçar peixe ao longo dos recifes. Recifes escuros e ricos como a selva, forjados a partir do mesmo basalto vulcânico que a ilha é construída sobre.

Quando o inchaço sobe de novo, vamos para o Ponto de Radiação ao norte de Santana, onde George e Rarick encontraram o lado direito que viria a definir o potencial de surf de São Tomé. A estrada alcatroada desintegra-se mais perto que chegamos, até que nós estamos batendo ao longo de uma trilha rutted onde casas de tábuas de madeira mentir esmagado uns contra os outros, empilhados em um assentamento que corre para o mar. A estrada ruim nos obriga a dirigir lentamente, a poucos quilômetros por hora. Um fluxo de crianças correr para fora as casas como passamos por, empurrando seus skates caseiros atrás do carro.
Quando chegamos a uma parada, eles se reúnem em volta, mostrando-nos as tábuas. O convés do ‘carro rolante’ ou trote é um bloco de madeira unido a caminhões feitos de ramos suavizados. Rolamentos de roda antigos foram montados em cada extremidade do ramo, que deve ser cuidadosamente selecionado: muito fino eo ramo se encaixará ou as rodas improvisadas se moverão. Muito grosso, e as rodas não serão capazes de girar em torno dos caminhões de madeira.
As crianças guincham com gargalhadas, enquanto Beyrick e William dão um jeito de ir às tábuas, sacudindo-se rigidamente de um lado para o outro na estrada. “Oleo, oleo!”, Grita um menininho, não mais de oito anos. Ele chicoteia uma pequena garrafa de plástico em seus shorts e pega uma das tábuas, apertando algumas gotas de óleo de motor usado nos rolamentos, depois vira-o e patins habilmente rodada em círculos, as rodas de aço martelando o chão alto.
O ponto da radiação começa seu nome do farol de rádio imponente que domina a península e senta-se empoleirado em terra subdesenvolvida do governo. Nós pato debaixo de uma cerca dilapidado e fazer a caminhada de 20 minutos através grama amarela alta a cor de trigo, pegando vislumbres da onda até chegarmos à costa.
“Não, não!”, Grita um dos surfistas locais quando começamos a caminhar sobre as pedras para remar. Ele aponta para uma massa gorda de ouriços encravados entre as pedras, então movimentos para nós segui-lo para um barranco onde deslizamos facilmente em águas mais profundas.
Um punhado de surfistas de São Tomé e Príncipe estão no backline, montando pranchas de mão-me-down, algumas sem barbatanas que ainda conseguem rasgar com graça. A onda corre por uma centena de metros do exterior para o interior, um bolso suave que acomoda noserides tanto como grandes voltas, muito parecido com uma versão Africano de Malibu.
“Como é bom isso?”, Diz John, varrendo a mão para indicar as ondas, a baía, toda a ilha.




 

De volta à água em Santana, Jéjé nos diz surfistas de sua aldeia e Ponto de Radiação raramente surfam juntos. A longa caminhada de uma hora e meia entre os dois pontos torna difícil. Nenhum deles tem carro. Mas quando um deles faz a caminhada, os surfistas locais são alimentados para ver uns aos outros.
“Não há muitos surfistas em São Tomé”, diz. “O surf moderno está apenas começando aqui. Nós nos vemos, aprendemos juntos.
Um jogo rola dentro e Beyrick descola, compete abaixo da linha e lança um ar do frontside. Jéjé solta um ruidoso grito antes de acariciar a próxima onda e tenta um enorme alley-oop, quase pousando-o, mas ele vem unstuck nos apartamentos.
As crianças no interior vão selvagens como eles vêem este tit-for-tat unfold, em seguida, voltar a bellyboarding as reformas. Mas um deles começa a empurrar mais adiante, com os olhos fixos em Jéjé e Beyrick. Seus pequenos braços batem com força, as pernas chutando as costas de seu tambua de madeira, à medida que o passado e o presente se aproximam.




Carve Magazine Issue 175


Palavras de Will Bendix | Fotos por Greg Ewing | Vídeo Dane Staples